confluência
quando você chegar, por favor, me abrace mais forte do que na última vez. como quem sente saudade, como quem ama, como quem se refugia. não tenha medo, vergonha ou mágoa. por favor, não tenha nada além da fome que sente a sua alma.
porque nosso abraço é o que nos resta,
última ponte entre a carne e o etéreo.
naquele dia, senti que demoramos a nos acostumar uma à outra. falamos sobre tudo, mas só estive verdadeiramente ali quando falamos da gente. também só te reconheci quando você deu uma risada larga, e seus dentes branquinhos e leitosos apareceram enfim, sua bochecha erguendo-se no formato de coração que tanto gosto.
mas na despedida... foi quando mais nos vimos.
é na iminência de um “adeus” que as máscaras caem, o corpo relaxa e o coração afrouxa seu batimento antes contido.
senti um carinho explodir no meu peito, e um ímpeto de me enfiar em seus cabelos para que você me levasse junto.
a garganta fechou, engolindo o beijo que queria sair pelos lábios.
também pude ver o seu desejo voltar para a boca do estômago.
salivávamos.
água dominando a boca, água lustrando os olhos, água correndo pelas veias, água vazando perna abaixo.
quando entrei no carro, pude, enfim, chorar. e fiquei grata porque o nosso último abraço, aquele da despedida, foi exatamente como eu queria:
o mar fitou o mar e vendo sua imensidão refletida no fundo dos olhos, acalmou-se, completo de si.

